Foi o primeiro ano que não tinha a companhia do meu irmão para ir e vir da escola. Ele começou a estudar de manhã e eu passei a levantar da cama tarde quase todos os dias, assistia um pouco de TV, almoçava e esperava entediada a perua escolar chegar para me levar para a tortura de estudar a quarta série. Às vezes eu acordava um pouco mais cedo e ia com minha mãe e minha irmãzinha almoçar na casa da minha avó e depois ia a pé arrastando a mochila para o inferno diário.
Eu era a menor da turma, lembro que eu sempre usava uma blusa de lã larga e parecia ficar menor ainda, esse era o objetivo, não aparecer!
Eu detestava a professora, não tinha interesse em nenhuma matéria, achava todas as meninas chatas, exceto a turminha da perua do tio Jorge e depois do Tio Chico.
Usava o perfume Musc da minha mãe.
Gostava platonicamente de um menino da sala do lado, eu o achava lindo, mas não falava para ninguém só por que o garotinho tinha orelhas grandes e eu também não chegava nem perto dele, vergonha e medo, pois ele era irmão do amigo do meu irmão, e de vez em quando eles iam lá em casa, acho que o orelhudinho nunca ouviu a minha voz! rs No mundo perfeito e cor de rosa ele pegaria na minha mão e sairíamos passeando pelo pátio da escola ao som de “Lean On Me” na versão do Club Nouveau que tocava toda hora na época.
Meus feriados foram em Peruíbe, como quase todos os anos. Mas em 1987 eu estava praticamente sozinha, pois meu irmão estava preocupado com seu bigodinho, minha irmã com seus "piolhos" da pré-escola na cabeça, meus pais ocupados com "tudo", minha avó pensando no meu avô e eu era ainda era criança para levar alguma amiguinha para praia, mas também que amiguinha? Eu era praticamente uma ovelhinha desgarrada do rebanho.
Nem as aulas de catequese nas terças cedo e as missas aos domingos ajudaram a controlar a pequena rebelde. Eu também não tinha nenhum interesse nessas aulas, não lembro de ter encontrado Jesus, afinal não tinha a companhia nem incentivo de minha família de “católicos não-praticantes”.
Nas terças quem me acompanhava até a igreja era o cachorro vira-lata da minha irmã, ele ia o percurso todo do meu lado e eu morrendo de vergonha fingia que não o conhecia, o intrépido Bea me esperava entrar na igreja abanava o rabo e voltava para casa.
No domingo eu ia à missa por obrigação com meu irmão que também estava se preparando para receber a primeira comunhão, mas ele fazia as aulas de preparação num outro dia da semana à tarde. Eu não gostava do padre “novo”, ele tinha um ar afrancesado meio fresco, preferia o padre “velho” que ficava lá no altar de enfeite, ele tinha cara de bonzinho e dava uma ajuda para o “novo”.
No final da temporada mais chata de minha infância, passei de ano na escola a trancos e barrancos. Na igreja não precisei fazer prova, ainda bem se não eu não estaria apta para comungar, mas precisei passar uns minutos com o padre para minha primeira (e única) confissão para poder receber minha primeira (e única) Eucaristia. Sorte que foi com o “velho”, lembro que me confessei pecando, é que eu não lembrava direito dos 10 mandamentos, mas sabia que não tinha matado, furtado, desejado a “mulher” do próximo... Enfim, contei para o padre algumas pequenas mentiras de mentirinha!!! Devo ter falado que colei na prova, que quebrei a boneca da minha irmã, que chutei o vira-lata, que ouvi um disco do Raul ao contrário... Claro que não fiz nada disso! rs
Na manhã do dia 25 de dezembro de 1987 foi a cerimônia de primeira comunhão. Sentia-me um pouco ridícula com o vestido branco e bastante ansiosa se meu convidado especial apareceria. Da porta da igreja vi meu príncipe encantando quase sessentão em seu monza vermelho do ano. Passei a cerimônia levantando os pés com meu sapatinho branco, apertado e malogrado (afinal ovelhinhas não usam salto alto) para espiar onde estava a minha família, meu pai eu tinha certeza que estaria do lado de fora com seu cigarrinho impaciente para o discurso natalino, mas eu não precisava levantar o tempo todo, afinal quem eu queria ver dava para enxergar a quilômetros de distância, mas eu não estava encontrando o urso gigante. Chegou minha vez de pegar a hóstia, não lembrava o que tinha que dizer então dei um sorrisinho amarelo e agradeci, coloquei na boca e abençoada grudou no céu da boca. Não dava para ser diferente, eu não tinha sido uma boa menina, tinha falado palavrão, não tinha comido tudo, tinha mentido na confissão e ainda respondia para os mais velhos.
Meu castigo não foi deixar de ganhar presentes materiais, esses vieram de "sacos" em 1987, aliás eu achava que era a única do “planeta” que tinha a Xuxa quase do meu tamanho (tá eu era nanica, mas para uma boneca era gigante!), mas o único presente que eu queria naquele e em todos natais anteriores era a presença do meu avô, meu padrinho de batismo, aquele que vivia, mas não convivia com a gente (ou seria o contrário?)... longa história.
Passei o pior Natal do pior ano da minha vida até então!
Nunca mais quis saber da paróquia da minha rua e nem de igreja alguma.
A partir de 1988 comecei a ouvir rock e meus problemas acabaram! Já sabia onde "descontar" a rebeldia Ovis aries... hehehe
Em 1991 meu avô voltou. Demorei um pouco para aceitar a novidade, mas logo baixei a guarda e aproveitei os anos seguintes... tive os melhores finais de semana e feriados em Peruíbe com minha família, com meu irmão-melhor-amigo e seus muitos amigos, com minha prima, com outro Platão, com meus amigos da editora... só faltou o Bea, mas alguém tinha que ficar em casa para proteger a Mansão Custódio. Só deixava de descer a serra quando tinha show do Viper ou algum mega show de rock, mas ai é assunto para outro post.
Em 1997 a festa no litoral sul acabou, meus avós subiram a serra para cuidar da saúde do boêmio gigante, mas ainda sim comemoramos nossas festas, feriados e finais de semana na velha fundição do velho.
Na manhã do dia 25 de dezembro de 1999 ele partiu.
Na madrugada anterior, já muito mal de saúde ele passou a mão gigante na minha cabeça, como sempre fazia, dizendo que lembrava a cabeça da mãe dele e disse ainda que eu estava muito bonita e elegante para a noite de natal, fez um comentário de um comercial na TV e riu como pôde. Dessa vez não era o meu sapato que apertava, era a garganta...
O filho da mãe era tão festeiro que escolheu o dia do natalício de Jesus Cristo para nascer no mundo de lá, para deixar na nossa memória seu aniversário de falecimento. Como se fosse possível esquecê-lo!
Na primeira semana do aguardado ano 2000 voltei na igreja do passado para a missa de sétimo dia do grande Arlindo Marques.
Em 2004 durante um passeio cego (literalmente) em busca do pai, do Deus pai ou de alguém tão importante quanto ao pai, fiquei insegura. Não aproveitaria essa dinâmica de um treinamento, pois tinha meu pai por perto e sem traumas, não estava interessada em Deus e não tinha ninguém "importante" para achar... bastou começar o passeio para eu pensar como deveria ser complicada a vida de um cego, neste mesmo momento bateu um remorso enorme por lembrar que meu avô perdeu a visão de uma vista e passou seu último ano de vida praticamente as escuras. Consegui chorar depois de quase 5 anos! Pedi perdão de coração por alimentar uma mágoa infantil por ele. Saí de lá leve e em paz! A pessoa que me levou para esse treinamento disse que era uma pena eu não acreditar em Deus, pois eu estava desprezando um momento espiritual mágico...
Depois deste treinamento comecei a estudar sobre desenvolvimento pessoal e dois anos depois acabei encontrando um novo caminho através do Johrei.
No final do mês passado tive uma experiência muito bonita dentro do Johrei Center, nesse dia senti no corpo e na alma a presença, o amor e a gratidão de meu avô e de sua mãe.
Fiquei grata e feliz de ter tomado rumo na vida, espiritualmente e religiosamente falando... rs
De sexta para sábado da semana passada eu tive um sonho com começo, meio e fim. No sonho eu teria uma missão a cumprir – levar a cadeira do meu avô de Peruíbe para Guarulhos. Ele não apareceu no sonho, mas eu tinha a nítida sensação de ser comandada por ele. Encontrei forças não sei de onde e comecei a transportar a tal cadeira, no começo eu tava morrendo de vergonha, mas depois parei e pensei que se continuasse com vergonha não poderia realizar seu desejo e lá fui com a cadeira de madeira com o estofado verde, ladeira acima. Não sabia ao certo onde levar, única instrução: leve minha cadeira para a Vila Rosália. Depois de muitas subidas, cheguei num lugar conhecido, fui convidada para entrar, era no Johrei Center Vila Rosália, deixei a cadeira próxima ao altar ao lado de outras cadeiras, mas em frente à imagem de Meishu-Sama. Eu vi perfeitamente a foto do meu Messias no sonho! De dentro da casa sai a ministra do Campo Belo dizendo que precisava me apresentar uma pessoa, tomei um susto, pois achava que ela ficaria brava comigo por eu estar em outra unidade, mas ela disse que era para eu ser obediente para essa pessoa, era um rapaz (que eu nunca vi) parecia um ministro jovem e junto com eles estava um outro ministro, o “chefe da minha chefe”, eles me deram parabéns e começaram a me orientar. Pena que não entendi o que eles me disseram, pareciam que estavam falando em outra língua. Sei lá, sonhos são sonhos.
Acordei lembrando de toda viagem da cadeira, fiquei com a sensação de missão cumprida! Fui na casa da minha mãe comentei do sonho e disse que antes da dedicação no Campo Belo iria até o JC Vila Rosália fazer um donativo para meu avô, ela abriu a carteira e pediu para eu fazer um no nome dela também! Ela lembrou que meu avô morava na Vila Rosália e que seu desejo era voltar para lá... coincidência? acho que não!
No domingo passado pude agradecer e orar para meu avô e antepassados no Solo Sagrado de Guarapiranga e ontem aproveitei a "carona" e fui andando com meu irmão, minha cunhada, minha sobrinha e meus pais até a igreja da minha rua para a missa das 19:00... (Pena que o Bea foi atrás de meu avó, seu primeiro dono).
Oito anos e 600 e poucos metros de distância.Fui fazer as pazes com minha memória, afinal não quero ser a Clementine e sair por ai apagando lembranças (nem as ruins nem as boas)... Graças à pequena Beatriz que será batizada na igreja católica pelos meus pais, eles estão indo semanalmente na missa. Meu pai não fica mais do lado de fora fumando, minha mãe não dá mais a desculpa que não gosta de missa por causa do meu pai, meu irmão (que também deve ter se confessado e comungado uma única vez) e minha cunhada (que vem da evangélica) que nunca foram a igreja (nem no casamento deles) estão todos firmes e fortes. Até ouvi meu pai cantando ontem e vi minha mãe comentando com meu pai para ser tornarem dizimistas, senti uma pontada de alegria pela mudança de comportamento, claro que preferia que eles fossem comigo pro lado de lá da rua, mas sei que Deus está no comando de tudo e, portanto não há com o que se preocupar.
Fiquei feliz de prestar a atenção pela 1ª vez numa missa inteira e o padre (que eu não conhecia) falou bonito.
Feliz por ter escolhido ser missionária da IMMB e é para isso que estou me preparando.
Feliz por voltar no tempo e dizer para aquela garotinha que nossa vida nestes últimos 20 anos foram cheios de altos e baixos, mas que foram maravilhosos e que juntas vamos caminhar ao encontro da vovó Renata... Assim Seja, ou seja lá o que Deus quiser!
PS: Que bom que escolheram o nome certo para a esperada bebê - Beatriz, aquela que faz os outros felizes, capaz de dar nova luz aos ambientes que freqüenta... perfeito!